Dicionário de Baianês – parte 1

10/12/2009
Oh Lord I´d like to know where is she now If she thinks about me or not Oh not        Oh lord, oh lord…”

Nem só de “O paí, ó” vive o baiano. Existem outras expressões com as quais um turista desavisado pode se encontrar e aí vai ser barril*.

Ops…Vamos lá!

Resenha: Se alguém disser, sente aí pra a gente fazer a resenha, não pense estar sendo convocado para um trabalho acadêmico. Aqui, o convite é para a mais pura fofoca, normalmente das quentes.

Guentar: Sim. O baiano, antes de tudo é um forte. Mas guentar não é uma corruptela de aguentar: o sol, o calor, as dívidas, a vida. Guentar é o péssimo hábito que alguns conterrâneos têm de agarrar as meninas que lhes agradam nos pagodes da vida.

Pai, véi, man, rei: Três letras e pronto, você já chamou alguém, na maior intimidade. Curiosidade: todos podem ser usados para mulheres, mesmo pai, que tem seu feminino, mãe. Essa vai especialmente para Marcos Bagno!

Colé de mermo: Tradução ipsis literis – Qual é de mesmo. Entendeu alguma coisa? Bem, colé de mermo quer dizer algo como “o que é mesmo que fulano quer dizer, ou saber”. Exemplo: “vou ali saber colé de mermo!” ou ainda a irresistível “colé de mermo, mermão?!?!”

*Barril: Nada como um pagode para entender o que significa: “Sexo sem camisinha só porque é bonitinho? Não vá que é barril! Não vá que é barril! Vale uma análise, não vale?

To be continued

Seu Totó de São Miguel

09/12/2009
“Aqui, nessa mesa de bar,
Você já cansou de escutar
Centenas de casos de amor…”
(Garçom, Reginaldo Rossi)

Seu Totó - Foto de Luana Ribeiro

Seu Totó, 77 anos, tem um box no Mercado São Miguel na Baixa dos Sapateiros há 54, vendendo vários tipo de cachaças (com caju, alho, a “viagra”…). Em seu bar, há lembranças em cores e preto e branco de sua vida: do passado de policial, dos amigos músicos, políticos, radialistas, artistas.

Caju, alho, viagra...

O presente de artista de Seu Totó é sua seresta que acontece todo sábado, no seu bar no Mercado São Miguel, às 18h. Vai lá!

Em homenagem a ele, que me convidou para ir lá com tanto carinho!

Cidade baixa high society

08/12/2009

Ainda está em discussão o projeto da SEDHAM (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente) de modernização para a orla de Itapagipe. Por enquanto, não saiu do papel, aliás, do vídeo, como podemos conferir:

Bom gosto, sofisticação? “Fama e sucesso”, no agora popularíssimo bordão do recém falecido apresentador Jorge Pedra?

Pessoalmente, sou a favor da recuperação de áreas depredadas (o que não exatamente o caso da orla itapagipana) da cidade, mas isto deve ser feito com o respeito a personalidade local e às pessoas que o habitam. Afinal, a cidade foi feita para morar, antes de tudo, não para ver.Grana a gente não tem, mas não nos falta glamour. Um glamour natural, feito de casarões seculares, amendoeiras beirando a praia, passeios no fim de tarde.

Prefiro “tédio” a toddy.

A sunga vermelha do Papai Noel

07/12/2009

A neve começa a cair em Salvador.

Sim, os termômetros não enlouqueceram, muito menos os vendedores de “água a 1 reaaaaal” e “aquárius fréeesh, sabores!”. Refiro-me ao encantador delírio de nossos “cenógrafos” de fim de ano que transformam nossa cidade tropical na Lapônia, no Natal. Pelo menos, não podemos dizer que, fazendo isto, estão alienados do mundo real: o Shopping Piedade fez uma decoração em branco e azul, inspirada no mais frio dos ambientes: os pólos do planeta, lembrando do aquecimento global.

Ou tentando lembrar, pois na realidade, o que se vê são as filas gigantescas de crianças que pedem ao Papai Noel um iphone, um ipod, “ai…Brad Pitt”. Mães que só faltam disputar com os filhos o colo de um papai noel cansado, impaciente, meio gozador ou até mesmo ausente, como me surpreendi dia desses ao passar e ver uma família posando ao lado da cadeira vazia – hora do almoço. Sinais dos tempos…

Já não se fazem Natais como antigamente.

Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel

09/10/2009
"Oê ôa moça na janela, eu vim te buscar"
“Oê ôa moça na janela, eu vim te buscar”
“Se você quer dinheiro, eu não tenho não
Se você quer carinho, eu tô de prontidão”
(Devagar Miudinho, Paulinho da Viola)

Ontem, estava vindo da entrevista de Palacios (nosso querido mestre e instrutor dos nossos blogs) e já eram umas 5 horas da tarde. Estava com pressa, ia pegar o Elevador Lacerda. Mas o sol estava lindo. Eu atravessei o Mercado Modelo e comecei a ouvir.

Um sonzinho tão gostoso. Como diria Jonas, um colega mineirim meu: pandeirim, violãozim…Parei na hora! E depois de eles tocarem uma música inteira, me lembrei: eu estava com a câmera ali.

Aquela cena ali poderia ser mais uma daquelas que você vê, ou melhor, tromba, e sabe que talvez nunca mais volte a ver. No caso, parecem que estarão sempre por lá, mas não naquelas circunstâncias, naquele sol, naquela luz, naquele estado de espírito em que todos os presentes estavam. Henri Cartier-Bresson, um dos melhores fotógrafos do mundo, chamava isto de momento decisivo (na verdade, nunca usou exatamente este termo). Clarice Lispector já chamou, belamente de ato gratuito. Eu só soube registrar, não sei se de forma eficiente, o quanto de gratificante e genuíno tinha na Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel.

Aliás, já é muito bonito em si mesmo existir uma ordem brasileira dessa ordem. Homens simples procurando proteger seu ofício ou talvez menos: uma produção de fim-de-semana, de mesa de bar, de coração apaixonado – ou partido. Aquele da direita, o mais baixinho tocando pandeiro, de vez em quando ia ao centro, dava uma sambadinha e voltava, com um sorriso matreiro.

E foi sorrindo que eu também fui embora, já pensando em dividir essa pérola com vocês também.

 

Calibre 35 mm

04/10/2009
Fogo Cruzado
Fogo Cruzado
“Na cara não, pra não estragar o velório”
(Do traficante Baiano para o PM Matias, em Tropa de Elite”)
“Na mira” (Programa policial vespertino soteropolitano – isso é que é saber escolher um nome)

Se Baiano fizesse jus ao nome e estivesse em Salvador, sua preocupação não seria somente com o velório: sua mãe, triste por seu guri, seus parentes…Estaria também preocupado com o que iria ao ar na tv.

O alguns exemplares do jornalismo (?) em Salvador, como Na mira e Se liga, Bocão veiculam na televisão imagens de corpos trucidados pelo crime na cidade, seja em confronto com gangues rivais, sejam execuções sumárias feitas pelas mesmas ou por policiais. Os corpos são explorados em sangue, vísceras e ferimentos. Apesar de vários protestos, tais programas ainda investem nesta estratégia.

Shot em inglês, pode ser utilizado para tiro e disparo de câmera fotográfica. Aliás, disparo também é uma palavra que se relaciona às armas. Qualquer semelhança talvez não seja mera coincidência. As câmeras, a luz forte dos flashes, o “cutucão” inquisidor dos microfones empunhados* pelos repórteres nas delegacias é muito similar ao cenário policial formado para encurralar os criminosos. Ou suspeitos. Ou desavisados e descamisados ”pretos, ou brancos quase pretos de tão pobres” encontrados em qualquer esquina, em qualquer birosca por aí.

O jornalismo pode servir para desvendar crimes, para elucidar fatos, para desencobrir a verdade. Mas pode servir também para desnudar homens, expor cadáveres e tirar a dignidade humana.

*Ossos do ofício? Tudo bem! Mas que os ossos do ofício não sejam os de corpos em decomposição das áreas de desova de Salvador.

“Tem mulher que usa P, tem mulher que usa M…”

26/09/2009
“Teve relevância pra você?” (Prof. Moisés Brito)

Se existe algo que gera polêmica na cidade é o pagode. Recentemente, o que está em alta é o escândalo da professora de educação infantil, que na casa de show (?!) Malagueta, dançou a singela coreografia do “Todo enfiado”.Mentira que você não viu o vídeo no Youtube?!!! Praticamente uma lenda urbana!

A pergunta que abre esse post, se refere a polêmica da professora, foi feita à minha turma e eu respondo aqui e agora. A relevância do caso, para mim, está no sabor especial que as letras de pagode – há claro, quem questione que elas existam. Não somente isso, mas também a caminhada na explicitude sexual contida na maioria das letras. Seguindo a lógica atual do hype, está muito próximo o momento em que “Todo enfiado” soará “tão século passado”.

E pensar que o pagode, já passou por tempos de relativa inocência, um clima quase folclórico, quando pelo menos havia o pudor de se criar duplos sentidos:

 

“Se for vermelho, é de morango

Se for amarelo, abacaxi

Se for verdinho, é de limão

E se ele for pequenininho, eu vou saindo de fininho”

(Melô do Pirulito, Cafuné)

E o vendedor de pirulito pergunta: tamanho é documento? Temos ainda:

“Seu Cláudio vai usar cueca de vidro

 que é pra proteger, o pega pra capar”

(Melô do Chaco, Tonho Matéria)

Ou ainda:

“Disquei pra turma do Bicho da Cara Preta

Pra poder me ajudar

Em um concurso dentro da roda-de-samba

Onde eu tinha que julgar

Tinha baiana, americana, italiana

Gente de todo lugar

Mas a gatinha escolhida

Era a tcheca bem sapeca pra sambar

Ô, lá, lá Ô pega a tcheca, solta a tcheca

Leva a tcheca, põe a tcheca pra sambar”

(Disque Tchan,É o Tchan 1997)

Já nesses versos, 12 anos depois, está claro que não há duplo sentido: se o houvesse, seria de uma xenofobia e violência* impressionante:

“Se vê o trio elétrico, ela segue logo atrás

Se der bobeira samba até no caminhão de gás

Não tá na internet, nem na televisão,

Deve tá no pagode, ralando a tcheca no chão”

(Black Style)

 Sinal dos tempos. A moça, que gosta muito de sambar e não resiste a uma festa, caso não esteja no pagode pode estar assistindo tv ou ainda na internet. Alguém duvida da penetração da internet nas periferias de Salvador? Quando eu morava em São Kate Califórnia Caetano, existiam mais lan-houses que lanchonetes. Viviam coalhadas de estudantes, até altas horas da madrugada. Fazendo o quê? Não me perguntem, mas a esperança é a última que morre. Quem sabe a galera não acaba caindo nos nossos blogs… Quem sabe…?

Se as mães, mesmo diante disso, não sabem ainda das atividades de suas filhas, o malandrão avisa:

 “Eu já falei pra você, pra você não marcar touca

A sua filha cresceu, tá dando água na boca

Já não é mais criança, é uma gata no cio,

Meu cachorro vadio, já fiquei sabendo

Ela não assiste desenho do lobo mau.

E ela agora só quer ver. desenho do pica-pau. 

êêêê-ê-êêêê-ê (aquela risadinha do pica-pau)

PI-CA-PAU!”

(Parangolé)

 Aliás, as mulheres, nas letras de pagode, são sempre sexuais e liberadas em matéria de comportamento. Quanta discussão não se houve em torno da “Problemática”:

 “Ela é problemática, ela é problemática

Olho de Tandera (Thundera), tá ligada em tudo

Tem maldade nas coisas do mundo,

essa menina não é brincadeira

Ela toma conhaque, toma cachaça, quebra cadeira (2x)”

(Parangolé)

 Nas discussões, a problemática passou de mulher barraqueira a uma mulher cheia de atitude – muitas pessoas passaram a se auto-intitularem problemática, com indisfarçável orgulho. Machista ou feminista? Eis uma que deixa claro o machismo e o preconceito:

 “Eu conheci uma menina na internet**,

e ela me disse que era um tremendo avião

Marquei um encontro com ela na Av. Sete.

E quando eu vi a menina pirei o cabeção:

Ela tem cara de jaca, nariz de xulapo

Estria nas pernas, bunda de peteca

Perna de alicate, cabelo de assolan (…)

Ela é corcunda, desengonçada

Cintura de ovo, com a cara manchada

E quando ela fala o bafo é de leão

Tem um caroço nas costa ,com a voz grossa

A cara torta, minha resposta na hora

Foi cantar esse refrão:

E o refrão é assim

Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão”

(Black Style)

 **(Olha a internet presente de novo!)

Cá pra nós, um cara que marca um encontro com uma menina na Avenida Sete, já não merece nenhuma credibilidade, dele só se esperaria um comportamento desses! Para quem não sabe, a parte da avenida (que vai da Praça Castro Alves até a Barra) que é conhecida como Avenida Sete é um verdadeiro camelódromo, com milhares de folhetos no chão, vendedores gritando e pessoas se empurrando impacientes.  Note-se também o preconceito racial embutido: “cabelo de assolan”.

As letras do pagode baiano dão muitas pistas do cotidiano da cidade. Não dá para ignorar, afinal, boa parte da cidade ouve pagode, frequenta as festas e isto está ligado a todo um estilo de vida. Poderíamos falar de uma cultura peculiar, que envolve moda, comportamento. Principalmente comportamento sexual, é verdade:

“Amor de gueto é assim

é uma loucura sem fim

não importa o dia nem hora

Em qualquer lugar pegar fogo.”

(Tchuco gostoso, É Xeque)

Nem sou eu que estou dizendo nada!!

 A questão é que o pagode está entranhado na vida da cidade, não está restrita aos guetos – que ao contrário do que possa sugerir o nome, são a maior parte da cidade. Mesmo quem não faz parte do “ambiente” pagodeiro, a qualquer momento pode cruzar com um carro com o som nas alturas tocando, para quem quiser - ou não - ouvir, um refrão qualquer. O ritmo é aliciante, como se perguntasse entre as batidas: tem relevância pra você?

 

*Imagino a pobre turista tcheca, que vai incauta a um (famigerado) ensaio de pagode na  CODEBA, para conhecer algo pitoresco (sim, pitoresco) da cidade. Mal sabia ela que iria participar de um estranho e dolorido ritual, onde ela será esfregada no chão. Definitivamente, não há duplo sentido.

Preâmbulo

24/09/2009




The writer - Foto minha

 



The writer – Foto minha


 “O que há de mais árduo para mim, ao escrever,são as exigências da propriedade vocabular, é a busca da da expressão adequada. Há mil maneiras de dizer uma coisa e só uma é perfeita.” (Fernando Sabino)


Se Marcelo D2 está à procura perfeita, todos nós, aspirantes a jornalista, estamos à procura dessa maneira perfeita de dizer algo que Fernando Sabino fala.

E falar do quê?

Este blog chega para falar da minha cidade, Salvador. Tão cantada, tão versada. Pouco falada, em seu jeitão, seu clima, seu cotidiano.

Sonhar com Paris, Londres, Nova Yorks, São Paulos e Rios de Janeiros manoelcarlistas (que eu adoro e não nego), é fácil. Sonhar é bom, travesseiro é barato – já as passagens de avião…

Viajar na própria cidade não é redescobrimento. É descobrimento mesmo. A gente nunca conhece nossa cidade por inteiro. Por outro lado, conhece melhor do que ninguém.

Para descrevê-la (ou escrevê-la?) quero a melhor maneira possível. Talvez esse preâmbulo contradiga isso, mas este blog é a tentativa, é essa procura. Como se fosse a primeira vez e como se fosse a última.

E que seja pura como aquele sorriso.

(sim, gosto muito de Fernando Sabino)

 


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