“Teve relevância pra você?” (Prof. Moisés Brito)
Se existe algo que gera polêmica na cidade é o pagode. Recentemente, o que está em alta é o escândalo da professora de educação infantil, que na casa de show (?!) Malagueta, dançou a singela coreografia do “Todo enfiado”.Mentira que você não viu o vídeo no Youtube?!!! Praticamente uma lenda urbana!
A pergunta que abre esse post, se refere a polêmica da professora, foi feita à minha turma e eu respondo aqui e agora. A relevância do caso, para mim, está no sabor especial que as letras de pagode – há claro, quem questione que elas existam. Não somente isso, mas também a caminhada na explicitude sexual contida na maioria das letras. Seguindo a lógica atual do hype, está muito próximo o momento em que “Todo enfiado” soará “tão século passado”.
E pensar que o pagode, já passou por tempos de relativa inocência, um clima quase folclórico, quando pelo menos havia o pudor de se criar duplos sentidos:
“Se for vermelho, é de morango
Se for amarelo, abacaxi
Se for verdinho, é de limão
E se ele for pequenininho, eu vou saindo de fininho”
(Melô do Pirulito, Cafuné)
E o vendedor de pirulito pergunta: tamanho é documento? Temos ainda:
“Seu Cláudio vai usar cueca de vidro
que é pra proteger, o pega pra capar”
(Melô do Chaco, Tonho Matéria)
Ou ainda:
“Disquei pra turma do Bicho da Cara Preta
Pra poder me ajudar
Em um concurso dentro da roda-de-samba
Onde eu tinha que julgar
Tinha baiana, americana, italiana
Gente de todo lugar
Mas a gatinha escolhida
Era a tcheca bem sapeca pra sambar
Ô, lá, lá Ô pega a tcheca, solta a tcheca
Leva a tcheca, põe a tcheca pra sambar”
(Disque Tchan,É o Tchan 1997)
Já nesses versos, 12 anos depois, está claro que não há duplo sentido: se o houvesse, seria de uma xenofobia e violência* impressionante:
“Se vê o trio elétrico, ela segue logo atrás
Se der bobeira samba até no caminhão de gás
Não tá na internet, nem na televisão,
Deve tá no pagode, ralando a tcheca no chão”
(Black Style)
Sinal dos tempos. A moça, que gosta muito de sambar e não resiste a uma festa, caso não esteja no pagode pode estar assistindo tv ou ainda na internet. Alguém duvida da penetração da internet nas periferias de Salvador? Quando eu morava em São Kate Califórnia Caetano, existiam mais lan-houses que lanchonetes. Viviam coalhadas de estudantes, até altas horas da madrugada. Fazendo o quê? Não me perguntem, mas a esperança é a última que morre. Quem sabe a galera não acaba caindo nos nossos blogs… Quem sabe…?
Se as mães, mesmo diante disso, não sabem ainda das atividades de suas filhas, o malandrão avisa:
“Eu já falei pra você, pra você não marcar touca
A sua filha cresceu, tá dando água na boca
Já não é mais criança, é uma gata no cio,
Meu cachorro vadio, já fiquei sabendo
Ela não assiste desenho do lobo mau.
E ela agora só quer ver. desenho do pica-pau.
êêêê-ê-êêêê-ê (aquela risadinha do pica-pau)
PI-CA-PAU!”
(Parangolé)
Aliás, as mulheres, nas letras de pagode, são sempre sexuais e liberadas em matéria de comportamento. Quanta discussão não se houve em torno da “Problemática”:
“Ela é problemática, ela é problemática
Olho de Tandera (Thundera), tá ligada em tudo
Tem maldade nas coisas do mundo,
essa menina não é brincadeira
Ela toma conhaque, toma cachaça, quebra cadeira (2x)”
(Parangolé)
Nas discussões, a problemática passou de mulher barraqueira a uma mulher cheia de atitude – muitas pessoas passaram a se auto-intitularem problemática, com indisfarçável orgulho. Machista ou feminista? Eis uma que deixa claro o machismo e o preconceito:
“Eu conheci uma menina na internet**,
e ela me disse que era um tremendo avião
Marquei um encontro com ela na Av. Sete.
E quando eu vi a menina pirei o cabeção:
Ela tem cara de jaca, nariz de xulapo
Estria nas pernas, bunda de peteca
Perna de alicate, cabelo de assolan (…)
Ela é corcunda, desengonçada
Cintura de ovo, com a cara manchada
E quando ela fala o bafo é de leão
Tem um caroço nas costa ,com a voz grossa
A cara torta, minha resposta na hora
Foi cantar esse refrão:
E o refrão é assim
Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão”
(Black Style)
**(Olha a internet presente de novo!)
Cá pra nós, um cara que marca um encontro com uma menina na Avenida Sete, já não merece nenhuma credibilidade, dele só se esperaria um comportamento desses! Para quem não sabe, a parte da avenida (que vai da Praça Castro Alves até a Barra) que é conhecida como Avenida Sete é um verdadeiro camelódromo, com milhares de folhetos no chão, vendedores gritando e pessoas se empurrando impacientes. Note-se também o preconceito racial embutido: “cabelo de assolan”.
As letras do pagode baiano dão muitas pistas do cotidiano da cidade. Não dá para ignorar, afinal, boa parte da cidade ouve pagode, frequenta as festas e isto está ligado a todo um estilo de vida. Poderíamos falar de uma cultura peculiar, que envolve moda, comportamento. Principalmente comportamento sexual, é verdade:
“Amor de gueto é assim
é uma loucura sem fim
não importa o dia nem hora
Em qualquer lugar pegar fogo.”
(Tchuco gostoso, É Xeque)
Nem sou eu que estou dizendo nada!!
A questão é que o pagode está entranhado na vida da cidade, não está restrita aos guetos – que ao contrário do que possa sugerir o nome, são a maior parte da cidade. Mesmo quem não faz parte do “ambiente” pagodeiro, a qualquer momento pode cruzar com um carro com o som nas alturas tocando, para quem quiser - ou não - ouvir, um refrão qualquer. O ritmo é aliciante, como se perguntasse entre as batidas: tem relevância pra você?
*Imagino a pobre turista tcheca, que vai incauta a um (famigerado) ensaio de pagode na CODEBA, para conhecer algo pitoresco (sim, pitoresco) da cidade. Mal sabia ela que iria participar de um estranho e dolorido ritual, onde ela será esfregada no chão. Definitivamente, não há duplo sentido.